8.12.08

Delirium Tremens

"Todo dia de manhã é nostalgia das besteira que fizemos ontem."

Acendo mais um cigarro. O Jack Daniels do meu copo começa a ficar aguado, pego a garrafa e derramo mais um pouco. Por alguns instantes, me sinto desprendido de todo o tumulto ao meu redor, de todo o tumulto dentro de mim. Sinto silêncio. Estou completamente entorpecido. O agora se distancia. Não há nada que eu tenha deixado de fazer a dez minutos que eu não possa fazer aqui. Ou seria ao contrário?

Preciso escrever. Pegar um pedaço de papel qualquer e rabiscar essas palavras nele o mais rápido possível. Mas como? Penso em sentar aqui mesmo, no meio do nada, no chão. Seria louco demais. Espaçoso demais. Não, preciso esperar um lugar para sentar. Tento me agarrar desesperadamente a cada palavra, na esperança de que elas não se afoguem daqui a pouco.

O tempo. O espaço. O mundo se torna imenso. Eu, pequeno. Percebo o pouco que poderia significar. Me perco em devaneios. Em estatísticas vazias. Quantas pessoas estão morrendo, quantas nascendo, quantas estão trepando, quantas tomando banho, quantas se matam nesse segundo-agora? E eu? Eu aqui. Em pé. Entorpecido.

Um espaço. O surfista se senta. Invejo-o. Desprezo-o, ele se senta e continua a conversar. Ele pode tudo. Ele pode escrever. Paro para pensar em minhas próprias escolhas. Quantas vezes, diante de todas as oportunidades que me foram dadas, tendo a minha frente todas as ferramentas eu também não simplesmente decidi estar? O Mago.

Pergunto se eu não estaria perdendo tempo demais me preocupando com um mundo que é pequeno demais. Que é só meu. Lembro do Gato de Schrödinger. E se eu estiver sozinho aqui, isolado do exterior por um “mecanismo diabólico”, minha existência regida pelo estado de uma partícula subatômica? Eternamente vivo-morto. Até que abram a caixa.

Vejo pela janela um par de olhos que me parecem familiares. Já vi aquele olhar antes, em outra pessoa, há não muitos anos atrás. Da primeira vez, foi como se minha mera existência dependesse da complacência daqueles olhos. Engraçado, agora esses olhos só me dizem pressa. E dor.

Minha garrafa acabou. Putaquepariu minha garrafa acabou. Ainda não tenho sono. Logo logo, vai tudo voltar. Todos aqueles sentimentos que não me pertencem, mas que agora são tão meus. O torpor vai dando lugar aos sentidos. Tem música tocando. Pessoas ao me redor falam, falam, falam. Riem. Um frio no estômago, seguido de uma respiração ofegante. Tá voltando. Preciso ir embora.

Alguém se levanta. Finalmente um espaço. Eu tenho uma caneta, onde está meu caderno? Um pedaço qualquer de papel. O meu caderno, eu não o trouxe. Eu tenho uma caneta mas não um papel. Mais uma brilhante metáfora da minha vida. Eu brinco um pouco com ela. O tédio vem, e com ele o sono. Eu durmo. As palavras se afogam lentamente.

Torpor. Tenho uma cerveja na mão. Não me dou ao trabalho de descobrir como. Música ainda ecoa ao fundo. Um carinho no braço. Quem ela é já não importa. Nunca importou. Um piscar de olhos e não existe mais nada além de cheiro e pele e gosto e sexo. Já não sou humano. Desapego e desprendimento. Sinto silêncio. Posso respirar novamente.

Outro solavanco e eu acordo. Chegou o meu ponto, aviso ao motorista que vou descer. Juntos, eu e minhas tralhas descemos. Não, eu não escrevi. Algumas palavras ainda bóiam na minha cabeça. Até eu chegar no escritório elas também já terão desaparecido. Acendo um cigarro. O dia está só começando.




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Cartola - Camarim.

6 comentários:

Zall disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zall disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zall disse...

Ode à poesia de se estar chapado
desprendido da mesmice do mesmo espaço amostral de sempre
com os mesmos vetores ortonormais definindo o que você têm ou não sabe
perdido em barulhos também me espanto em meu próprio mundo, saindo dele, estourando ele, no meio dele, sufocado ou respirando a plenos pulmões
sem saber se os olhos estão fechados ou abertos, já perdido das ferramentas ou das oportunidades, faço força até achar algum sentido, sem saber se continuo ou não no mesmo lugar.
se as palavras de uma velha louca não me disseram nada,
hoje eu chorei alto demais quando fitei seus olhos e abracei sua mão
e fico aqui, prostrado, jogado e abraçando o mar sem saber o que ser

pieratti disse...

Amore!
Adoro essa primeira frase!
Amei o post, apesar de o sr não ter colocado o desenho q fiz
Muy malo!
Besos

Sonho de Deuses disse...

Nossa... tanto pra comentar em tão pouco tempo... q fique aqui um carinho para o seu ego de pseudo-escritor: ótimo texto!

Os comentários? Faço-os durante a próxima garrafa de jack daniel's (lembra que qdo cheguei tinha acabado?)

Ana C Portes disse...

é...