com o que se deseja, porque é até possível se torne real.
Uma vez, já quis ir tão fundo a ponto de entender a Verdade. Hoje, só quero saber no que não acreditar. Já sonhei com uma vida melhor e agora sou tantos que não sei mais onde estou. Onde deveria estar. Eu sofri por amor e pedi aos sete deuses que me rasgassem a alma ao meio. Sobrou uma apatia onde nada ou ninguém mais comove.
Devo ter-me tornado homúnculo; sem alma, sem coração, sem consciência, parece que até os demônios que antes me assombravam foram embora. Amoral. Na minha mão vejo o pó fino dos ossos daquele anjo que antes esmaguei. Estranhamente, não vejo mais o diabinho grunhindo sobre o ombro.
A maioria das pessoas acha que vai encontrar as respostas do Universo naquela luz no fim do túnel. Como se tudo o que separasse elas de um morto fosse a cor da sua pele e a verdade final. Eu encontrei todas as respostas que preciso no silêncio antes da tempestade. Outro dia, vendo uma se aproximar, entendi que a beleza muitas vezes chega revestida de medo. Me apaixonei pelo raio e pela chuva, mesmo sabendo que eles nunca me amariam de volta. Ouvindo os trovões ao longe ouvi a voz de deus tocar meus ouvidos. Seres míticos há muito esquecidos praguejando inebriados pela metrópole, aranhas arranhando suas patas contra a teia desfeita, o verme mordiscando o caixão de madeira, bêbados gritando hai kais da janela do carro, a mosca zumbindo no ouvido do louco. Ouvi o vazio. O som do meu coração pulsando no escuro, sem a matéria líquida que lhe desse sentido.
Ouvi, lá no fundo, a mão suja do mendigo pedindo esmola.
Me dê qualquer coisa.
Me dê poesia.

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